quinta-feira, agosto 23

Break Down


Estou cansada. O sono apodera-se de mim e adormece a desilusão que me abraça. Sou um farrapo que alguém usou e desprezou. Sou os restos mortais de alguém que amou sem nunca conhecer a infinitude de um ser maior. Chove por dentro de mim. Uma chuva torrencial que quebra a transparência do meu ser. Procuro-me nas tuas palavras na ânsia de me rever ontem, hoje e sempre. Procuro nelas o abrigo para o inverno que se faz sentir nas entranhas do meu ser. Encontro um abismo sem fim. Tudo oco. Tudo vazio. E tecla a tecla, vou imprimindo palavras soltas na tentativa de redesenhar o meu percurso, delinear novas metas. Vou tentando retirar-te da minha vida, apagar as tuas marcas e esquecer-te no mais íntimo de mim. Não sou poeta, falta-me o ser erudito, a eloquência para te satisfazer e te prender. Nunca o fui. Nunca a tive. Talvez por isso, me amasses menos. Talvez por isso, buscasses outros enredos. Outras aventuras.

Eu... sou o que sou e nada mais! Um ser imperfeito, inacabado. Às vezes, desejável, mas sempre insuficiente. Gostas de histórias de palácios e dragões. Princesas por resgatar, sentimentos por desbravar, sensações mágicas.... Eu sempre fui a realidade possível, a princesa de chinelos, sem palácio e sem dragões. O sentimento comum, a sensação vulgar. O beijo mais banal num contexto sofrível, mas no qual nunca precisaste de ser o herói. Comigo, nunca viste estrelas, nunca provaste o salgado, nunca andaste descalço. Nunca sentiste borboletas!

Eu... sou apenas o tempo ultrapassado. Um tempo que se desfaz em cinza por um espaço que se dilui a cada segundo. Sou as memórias de um livro por reinventar. As lembranças de uma história por reescrever. Sou um sonho que se esfumaça a cada passagem do teu ser. Uma lágrima a cada ponta do véu levantada.

Queria adormecer e não voltar mais a esta vida que visto, sem formas e sem cores. Queria despir-me do peso de um passado que não escolhi mas que agarrei. Queria despir-me de ti. Não mais sentir-te em mim, no modo como te instalas e sais impune. Queres palavras bonitas? Eu quero mais! Quero um amor talhado no céu. Um amor com as minhas insígnias. O meu nome inscrito em cada centímetro de pele. O meu rosto em cada olhar devolvido. O meu sorriso em cada gargalhada espontânea. Quero rever-me em alguém. Ser a alegria e a tristeza partilhada. Ser a vida e a morte de alguém.

Faltam-me as forças para quebrar este pensamento obssessivo, no qual as ideias se atropelam e nada revelam. Não cabem em papel. Não cabem na alma, na vida. Assumes a forma de um estranho que me despertou para uma consiência que depois abandonou. Um estranho que já me tocou e que viria a rejeitar-me no sonho que não partilhou. Procuro alcançar-te com as minhas mãos, mas sob elas encontro um papel em branco por preencher. Procuro gritar e chamar-te, mas outro chamamento prevalece. E enquanto tudo se redefine, o cansaço vai-me adormecendo e embalando a desilusão que tarda em abandonar-me!

de Cátia Pinto
*Foto de
cyril berthault-jacquier

terça-feira, agosto 21

Pela Mão da Vida

Partilham-se agasalhos e sonhos,
gargalhadas e silêncios.

Partilham-se históiras de encantar
e amores desencantados.

Partilha-se o leite e a cama,
a torrada e o sorriso.

Partilha-se a pimenta e o sal,
o mel e o gelado.

Partilha-se a mão e o beijo,
a ilusão e as caricias.




Partilha-se o desgosto, guarda-se o remorso

Partilha-se de novo o silencio...estranhamente!

Partilha-se o segredo...separamente!

Partilha-se o corte...desesperadamente!

Partilha-se a ruptura...pura e simplesmente!

domingo, julho 22

Verdade

"A verdade, quando impedida de marchar, refugia-se no coração dos homens e vai ganhando em profundidade o que parece perder em superfície...


Um dia, essa verdade obscura, sobe das profundidades onde se exilara e surge tão forte claridade, que rasga as trevas do Mundo."

- Rolão Preto

sábado, abril 14

L'amour

Todos nesta terra procuramos o mesmo, escondemo-nos debaixo de capas e futilidades, escodemo-nos com trapos e mantas, apagamos luzes e velas para não nos vermos nem termos de olhar o outro nos olhos profunda e directamente... damos cambalhotas em colchões desconhecidos, arranjamos complicações onde elas não existem, escondemos verdades de quem mais amamos, escondemos verdades de nós próprios e no fundo todos procuramos o mesmo:amor!...mas onde está ele? Procuramo-lo no fundo de um copo, no fumo de cada cigarro, na agulha de uma seringa, na caixa dos comprimidos e em tantos outros recondidos recantos...procuramos amor no toque do outro, nas suas mãos, no seu olhar, nas suas promessas vãs, no calor do seu corpo...procuramos em todo o lado e, por ele estar guardado no sitio mais obvio, não o encontramos, porque não o procuramos onde ele está: o amor por nós existe dentro do nosso coração, mas são as coisas mais á vista, que estão no sitio mais perto que nos esquecemos sempre de olhar...

terça-feira, abril 10

Quase



Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase.

É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.

Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.

Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.

A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.

Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.

O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém,preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo.

De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.

Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.

Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

* Texto de Sarah Westphal Batista da Silva

sexta-feira, março 30

Fintar a Pulsação

É dia de arriscar
De fintar a pulsação
Mesmo se eu tropeçar
E fizer um arranhão

Eu vou andar tão certa
De que o medo é um papão
Franzindo o meu sobrolho a qualquer um
Em qualquer direcção

Hoje eu sou a dona da razão
Ai de quem me diga que não
Que eu sou capaz
De nem pestanejar

É tempo de ser forte
Atar os tenis com dois nós
Abraçar o vento norte
Sorrir a quem se ri de nós

Se nem sequer é noite
As sombras não vão lá estar
Eu vou serrar os dentes
Hoje é dia de arriscar

Hoje eu sou a dona da razão
Ai de quem me diga que não
Que eu sou capaz de nem pestanejar
E se algum dos maus me aparecer
Se me apanharem a correr
Eu sou capaz de nem pestanejar

É dia de ser forte
De fintar a pulsação

by Susana Felix

sábado, março 24

As Pedras do Caminho

As pedras do caminho
Que se partem ao virar da esquina
Que rebentam no som de um onda
Que sustentam o silêncio das ruas nas calçada

As pedras do caminho
Que calam, não murmuram
Que choram sem lágrimas molhadas
Que esqueces e esqueço também















As pedras do caminho
Que morrem e se escondem
Que enterram e dão vida
Que comem e alimentam

As pedras do caminho
Que sutentam o mundo,
A mim e a ti
Num missão sem fundo

Foto e texto by: Eushinha

segunda-feira, março 19

Tributo ao Reflectores

Nas longas viagens solitárias à noite, numa qualquer estrada secundária, a iluminar o caminho estão umas pequeninas peças que, como por milagre se iluminam quando as luzes do carro, docemente lhes tocam. São verdadeiras companheiras de viagem no silencio da noite! Intermitentes ou continuas, consoante o traço, estendem-se como cobras ziguezagueantes pelo meio da estrada a indicar o caminho, a mostrar que lá mais à frente há uma nova curva suave para a direita. Estão sempre lá: à chuva, ao vento, com nevoiro ou sol abrasador, amigos quase invisiveis mas que fazem toda a diferença a quem conduz!...
Porque acho que os pequenos reflectores merecem, aqui lhes deixo a minha homenagem.

domingo, março 4

Irreverente

Abre os olhos, pá!
Abre os olhos!
Já os abri e nada vi...

Abre pestana, pá!
Abre a pestana!
Já abri e nada vi...











Porque os teus olhos são cegos,
Tuas pestanas surdas são!
Só verás se escutares
A TUA voz,
A voz do teu coração!!!!!!!

by Eushinha