domingo, junho 23

Headache


Comprimido tomado - tirado, tomado. Novo café, mudança de ares forçada por deficit de educação.

...

Pequenos "Olás", sumidos.. estou perto da ira, ainda o dia faz ecoar os primeiros raios de luz nos cantos dos edifícios. Senhoras muito penteadas sussurram saberes próprios da idade, de como quem escuta atrás das portas. Aprenderam algo que me desgosta - são humanas, somente.

Estou aviado. Faço-me à porta determinado.
Monto-me no porta-berrante das rectas curvantes (semi-novo, que a economia me amarrotou a empresa).

Este antigo passeio costuma arrefecer-me o sangue da melhor maneira. Estou extasiado com o vento no rosto. Sinto falta do amigo - e lá me dirijo. 
Café antigo - azulejo velho em prédio novo - pais antigos atrás de um balcão que jamais recusa uma moeda.

Sou o "mais-velho" para os miúdos que vendem na esquina. Para quem passa, sou conversador de circunstância. Para os pais do amigo, confidente alheado do tempo, absorvo queixumes e reflicto conselheiros ditames. Nunca soube ouvir - não o justifico na idade, na falta de ouvido ou na dor de conhecer palavras demais. 

Ando absorvido num quotidiano abafado que me faz mover mas não me impele nem motiva.

O meu nome ecoa por estes lados - fascínio doce pela tentação de ter mais, sou progresso e saber. 
É que em terra de cegos, também eu sei cheirar. 
Aprendi-o com os antigos.

Desconhecia, digo-o antes de o saber realmente. Permaneço na ignorância até uma escondida lágrima dizer o que a voz abafada já não foi capaz. Como poderia eu não saber, se já lá vão oito dias?!?

Amigo com dor de cabeça, que se esqueceu de tudo e todos em menos de dez horas de vida... 

Como poderia eu não saber?!? Quatro filhos, uma esposa, dois pais.. o jardim, os pequenos cães, o grande Retriever... todos os seus clientes, o trabalho, os amigos, trinta e sete anos de vida esquecida em menos de dez horas... Como poderia eu não saber?!?!

O meu amigo.. está só comigo a seu lado. A filha mais velha com saudades, o segundo que já entende, os mais pequenos que nunca entenderam, estão sós como ele.

Coma médico sobre coma social, transformou-me a ira em dor.

Agradeço sinceramente os problemas que tenho tido.

Não me sinto religioso, e acho-o curioso desta vez.

Desejo-te as melhoras companheiro - não me leves a mal a pieguice.

quarta-feira, abril 17

Sois bizarro, Sois estranho!


- Sois bizarro. Sois estranho! Alongais-vos em delírios inimagináveis,  perscrutais pérfidos trilhos, obscuros, negras silhuetas escondidas em arbustos, apontadas ao abismo que procurais.

- Ah! Escondei-vos assim, desgarrada criatura. Revejo-vos agora, espelhais-vos num irritante sibilo. Resposta mais não ouvireis.

Sinais de nevoeiro, escuto-me chegar ao longe - és sublime! O início do passo que dás, o valor que entregas aos teus actos, a ousadia de avançar. 

- Porém, escutei-vos.

Deixo-te retroceder, se assim optares, que aprendizes forçados regressam à lavoura. Defendo o livre-arbítrio. Um passo atrás ou um passo à frente?

Desgraças, alheias tormentas que vos invadem, sussurram pragas e aniquilação. Distantes, para lá dos Montes de Olimpo, mesmo onde os Mundos se iniciam e terminam, vejo fracos como aqui. Frágeis. 

Distintamente em declínio, vejo-os erguerem-se.

Em uníssono como nunca, heis semelhantes seres finalmente algo firmar. Uma vaga de ocas almas! Pranto! Lamento grunhido aos céus, dores paridas em cantos, essa forma de estar que vos impele para o retrocesso.

- Agora, hoje, entendeis o que penso? Será loucura a vontade de cerrar os olhos, viver pesadelos negros por opção? Delírios, dizias?

- Não vos escuto. Sois sem sentido, a razão não é vossa confidente. Sois bizarro, Sois estranho!